Viajar é bom, difícil é conhecer quem não goste. Quem não curte pegar um avião e estar em menos tempo no lugar de destino? Aproveitar o conforto de um bom quarto de hotel e conhecer as belezas do local, tudo de forma bem calma e programada? Mas…e se a viagem for de CARONA?
Uma modalidade antiga de viagem, a carona ainda é estilo de vida de muitas pessoas. Pelo que observo, no Brasil, o gesto clássico de levantar o polegar no ar não é mais tão comum como era nos anos 60. Creio eu que seja por motivos culturais ou devido a violência mesmo. No entanto, em outros países, dar carona é um comportamento de rotina.
Com o intuito de rodar toda a América Latina, o paulista Carlos Grispan, dono do blog Andejo Viajante, resolveu adotar esta prática. Desde 2009, o jovem está com os pés na estrada e já passou por 157 cidades em cinco países como Brasil, Uruguai, Argentina, Chile e Paraguai, o que resulta em 26.363 Km percorridos.

Para economizar, ele conta, inclusive, com o CouchSurfing, uma rede social da internet criada em 1999, cujo objetivo é colocar em contato pessoas de todo o mundo que hospedam turistas em suas casas, ou melhor, no sofá. Carlos também trabalha em alguns locais por onde passa para levantar alguma grana.

Em entrevista ao SubLetras, o andarilho conta sobre suas aventuras e todas as dificuldades que a vida de caroneiro oferece. Apesar dos perrengues, como ter que dormir em locais abandonados por falta de opção, Carlos afirma que vale à pena. Para ele, este tipo de viagem é a melhor forma de ter contato com a liberdade e amadurecer. Ele também dá dica para mulheres que têm vontade de aderir à carona, mas não têm coragem. Confira!
SubLetras – Para uma mulher, é seguro pegar carona sozinha na estrada, principalmente no Brasil? O que fazer para diminuir os riscos?
Carlos Grispan – Não posso ser irresponsável e dizer pra ti que não há riscos em viajar de carona, principalmente para uma mulher. Por outro lado, já soube de muitas histórias de mulheres que viajaram e viajam sozinhas de carona. Outro dado é que estou viajando desde dezembro de 2009, e não é minha primeira viagem e nunca aconteceu nada mal e nem mesmo esquisito comigo pegando carona.
- Em relação ao dinheiro. Como foi com você? Precisou trabalhar nestes lugares por onde passa?
Juntei um grana no começo, mas não durou muito. Soluções: trabalho em troca de comida, ou paro para trabalhar mesmo em lugares diferentes por um tempo pra juntar uma grana e seguir viajando. Atualmente trabalho por internet, o que é uma ótima solução para viajantes.
- Você traçou um roteiro antes de sair ou vai decidindo conforme a viagem?
Tracei um roteiro base, mas deixo a vida me levar. Na minha primeira viagem não fiz roteiro porque queria ser livre, entretanto percebi que deixava de visitar lugares interessantes por falta de informação. Existem lugares que quero passar, esses dou um jeito de ir sim ou sim, entretanto não deixo de aproveitar lugares não planejados ou indicações de pessoas da região, que sempre sabem mais que guias de turismo. Obs.: É impossível seguir um roteiro viajando de carona. Eu acho que já descumpri mais planos que os cumpri.
- Se preparou fisicamente? Fez alguns cursos?
Sempre gostei de esportes, por isso tenho um bom preparo físico, o qual já foi várias vezes exigido no caminho. Mas não fiz nenhum preparo específico e nenhum curso nesse sentido. Fui escoteiro quando moleque e e por muito tempo antes de viajar me preparei estudando coisas que poderiam ser úteis um dia no caminho. Sou professor de dança de salão, mergulhador, barman, todas funções que não exigem uma grande busca ou formalidade para trabalhar. Mas te aviso que isso não é essencial, poderia ter me virado sem essas coisas.
-Quando não consegue ser hospedado por um “CouchSurfing”, você costuma dormir em locais abandonados ou postos. Você indicaria isso para uma mulher?
Eu não indicaria a ninguém dormir em locais assim. É inseguro, sujo, não se dorme bem, geralmente é frio. Mas quando você está sozinho em um local desconhecido, super cansado e não tem pra onde ir, suas exigências caem bastante. Particularmente não tenho drama com isso, já fiz várias vezes e com certeza farei muito mais antes de terminar essa viagem. Aconselho deixar lugares abandonados como última opção.
- Sobre coisas de valor, como a camera que você utiliza para filmar. Anda com ela sempre na rua? Já foi assaltado?
Ando sim com tudo e nunca fui assaltado. É importante lembrar que as pessoas em geral não são assaltadas e simfurtadas. Estar sempre atento e cuidando suas coisas ajuda muito a evitar isso.
- Toda a burocracia como visto e vacinas. Fez tudo no Brasil?
Vacinas é super rápido. Tomei todas num dia e fiquei com os braços e a bunda doendo tudo ao mesmo tempo. Com a carteirinha de vacinação na mão tu vai a postos de controle da vigilância sanitária e pede a Carteira de Vacinação Internacional que te dão na hora. Quanto a vistos, viajo por países que não exigem visto dos brasileiros. Os únicos que planejava passar e que exigem visto são Cuba e Guiana Francesa, mas ia ver isso depois, afinal ainda estou muito longe desses lugares. Para pedir visto, tem que ir a embaixada ou consulado do país em questão, mas não precisa ser no teu país de origem, pode, por exemplo, pedir visto cubano na Guatemala. Essas informações burocráticas não são confiáveis. Sugiro que se informe melhor sobre vistos por exemplo, porque cada país tem suas regras.
- Você teve algum problema de comunicação? Acredito que fale outras linguas, mas é fluente nelas? O quanto isso é importante para quem viaja sozinho?
Sou fluente em inglês e espanhol e creio que sim, isso me ajudou muito. Sempre acreditei que comunicaçao é algo essencial, além de ajudar muito a encontrar trabalhos no caminho. Mas o importante mesmo é comunicar-se, com gestos, portunhol ou spanglish.
- Gostaria de fazer alguma consideração final?
viajar dessa maneira é perigoso, sujo, cansativo. Em vários momentos vai pensar: “Que caralho estou fazendo aqui?’. Vai passar fome, frio, mesmo que tenha dinheiro, porque vai estar em um lugar que não tem nem onde comprar comida. Vai congelar, se ensopar, derreter em asfaltos esperando por horas intermináveis caronas que não vêm. Vai se sentir só num momento, de repente conhece pessoas maravilhosas, vai abandoná-las para seguir viagem e vai se sentir só de novo. Vai ter dores de cabeça super fortes e não vai ter uma cama pra deitar. Vai passar mal e o melhorlugar do mundo vai ser uma privada de posto de gasolina de beira de estrada.Se algumas dessas coisas desagrada, aconselho a não viajar da forma que estou viajando, mudando pra quem sabe um mochilão tradicional de ônibus e hostel. Por outro lado, se essas coisas por mais estranho que seja, motivem ainda mais, garanto que as experiências serão impagáveis, do tipo que não se conta porquê tem certeza que ninguém acreditaria, do tipo que faltam palavras para descrever. Verá lugares do mundo que foram esquecidos, conhecerá a bondade que existe no mundo e amadurecerá de uma maneira que te fará rir de quem você era antes.
>> Para quem gostou da entrevista e quiser se aprofundar no assunto, existe um projeto chamado Expedição Carona Interativa, que luta para resgatar o uso e a importância desse transporte alternativo. Lá os visitantes também podem conferir dicas que facilitam na hora de conseguir uma carona. Vejam!
Abraços,
SubLetras